Sábado, Julho 09, 2011

Tinta Azul

Há muito que está vazia

Numa ausência total de rasgos que lhe tragam vida.

O medo da incerteza

- inexistência de limites -

De tudo estar outra vez por construir

Tem afastado o meu olhar

Onde só encontra uma brancura

Mais gélida que a neve

De onde não se volta.

Hoje voltei a romper nela,

Descarreguei raios de tinta azul

- a recarga era nova –

e o desassossego escorreu até aqui

local ao qual retorna esporadicamente

a espaços cada vez mais distantes.

ser como a água de um rio,
conformado com o seu destino
e de se calhar nunca retornar à nascente
ou de nem sequer desaguar no mar

Segunda-feira, Março 07, 2011

AQUELE OUTRO

Texto de Gonçalo M. Tavares desenho de Rachel Caiano
Um homem com o rosto tapado por uma máscara preta marcha com uma arma na mão.
Atrás dele, muitos outros homens com a cara tapada por lenços e armas na mão.
Mas há um deles que marcha no meio da fila e não tem arma,
apesar de também ter o rosto tapado.
Que vai fazer aquele homem que não tem arma na mão?
É estranho estar ali – e é de longe esse homem que mais assusta
aqueles que vêem passar aquela bela procissão

Sexta-feira, Outubro 22, 2010

No Fim Ela Ficou Parada a Olhar

Ela, de quem ele não conhecia

E ela a ele,

Reparam um no outro,

Pela primeira vez

Sentados frente a frente

Num comboio suburbano

Cujo o destino ignorei.

A figura dela:

Óculos escuros à Ray Charles,

Auscultadores da era dos Walkmen

Casaco de cabedal tipo Stray Cats

E umas sapatilhas encarnadas a condizer

O que contrastava com o computador portátil sobre o seu colo.

A opacidade dos óculos escuros,

Impediram qualquer cruzar de olhos,

Que fosse sentido por ambas as partes,

Mas assim cada um desejou

Sem o saber.

Ela saiu mais cedo,

Ele ficou sentado no mesmo sítio,

À janela, esperando que o mundo lá fora voltasse a mexer-se,

Reparou então,

Que ela ficou parada,

Como uma arvore que ladeia algumas estradas nacionais,

E que ficam a ver os carros a passar.

Ele ficou a olhar para ela,

Ela imóvel do outro lado do vidro,

Ficou parada a olhar – imaginou ele,

Até o comboio desaparecer de vista.

Segunda-feira, Outubro 11, 2010

Lugar esvaziado

Agora vazia

Onde antes existia uma vida

Instalou-se o silêncio

E um frio que penetra até aos ossos.

Segunda-feira, Outubro 04, 2010

( )

Sentir o que está entre

- Talvez pelo fim de semana -

Entre parêntesis

Ou pessoas

Demasiadas

E no meio

O infinito

Que pede mais

E nunca fica satisfeito.

O medo de ficar

Preso a esse momento

Que não tem fim

... aparente....

e permanecer na fronteira

de ninguém.

Quarta-feira, Setembro 22, 2010

Cartões Amarelados

Eram fotografias tipo passe

A Preto e branco

Em cima de um cartão amarelado.

Atrás,

Vinha o ano.

Era o mais novo

O dossiê continha pó

Mais velho que eu

E dentro

... caras que desconhecia

e outras que vi passar

... poucas ficaram.

Eu só tinha 19

E senti-me velho

Porque o vento soprava

Por entre as gretas do dossiê.

Ainda tinha avô

Não escrevia

Nem me apetecia tirar fotografias.

O cabelo era longo

E tímido.

Foi a partir desse dia,

... que os pequenos grãos de areia

passaram a cair

conscientemente.

Raras foram as vezes

Em que as revi

As fotos do meu passado

Porque nunca me esqueci

As pessoas

As sensações

Que o vento

Teima em nunca deixar igual.

Segunda-feira, Setembro 20, 2010

Processos de conhecimento

Os limites

Aos meus sentidos e

Sentimentos

Servem para

Conseguir conter em mim

(ilusão)

o mundo.